ZINC de Souza-CardosoNão mais te encontrei
naquele espaço de tempo
em que previas ler-me
coisas que podiam ser
apenas de ti, ao sair-mos
do museu em segredo
como se a palavra
não existisse;
ainda te amo
sem te conhecer
como foi o encontro;
aconteceu, sem amizade
nem frases nem palavra
apenas a condição de olhar
as pinturas sem afinidade
sem produto final de amparar
o trabalho do pintor: desejos
de quem compra tudo
sem ver Arte no conteúdo
apenas dinheiro, material
que defende o que está mal,
como se a pintura fosse
uma passatempo, artesanal...
Picasso estava lá, pintado
mas nem esse mal desejado
não teve a nossa aquiescência
nem um sim, este é bom...mas
não, apenas assinado
e escolhido por dá cá aquele
quadro na escala do surreal
no enquadramento em aço
sentenciado pelo dono
a monte, assinado Picasso,
porque todo o resto
tem espaços mal aproveitados
e chama-se Museu de nada
como se em Portugal a pintura
não chegasse para ver e contar;
lembras-te as roturas de montagem
de Souza-Cardoso, em Nova Iorque,
a qualidade de tudo e a pintura
de um português comparado a Pablo;
nesse dia tudo estava certo
e entrámos sem dizer nada e repetiste
a palavra, isto fere-me, tal qual Almada...
