segunda-feira, junho 30, 2008

encontro mediúnico em Nova Iorque

ZINC de Souza-Cardoso


Não mais te encontrei
naquele espaço de tempo
em que previas ler-me
coisas que podiam ser
apenas de ti, ao sair-mos
do museu em segredo
como se a palavra
não existisse;
ainda te amo
sem te conhecer
como foi o encontro;
aconteceu, sem amizade
nem frases nem palavra
apenas a condição de olhar
as pinturas sem afinidade
sem produto final de amparar
o trabalho do pintor: desejos
de quem compra tudo
sem ver Arte no conteúdo
apenas dinheiro, material
que defende o que está mal,
como se a pintura fosse
uma passatempo, artesanal...

Picasso estava lá, pintado
mas nem esse mal desejado
não teve a nossa aquiescência
nem um sim, este é bom...mas
não, apenas assinado
e escolhido por dá cá aquele
quadro na escala do surreal
no enquadramento em aço
sentenciado pelo dono
a monte, assinado Picasso,
porque todo o resto
tem espaços mal aproveitados
e chama-se Museu de nada
como se em Portugal a pintura
não chegasse para ver e contar;

lembras-te as roturas de montagem
de Souza-Cardoso, em Nova Iorque,
a qualidade de tudo e a pintura
de um português comparado a Pablo;
nesse dia tudo estava certo
e entrámos sem dizer nada e repetiste
a palavra, isto fere-me, tal qual Almada...

sábado, janeiro 26, 2008

canção liberta do mal

infinita tarde que me esqueço
sol prateado em cortina de névoa;
os pássaros se calaram do fresco
trémulos no telhado sem trégua,
tempo que muda rapidamente

de lugar em lugar aparece outro sol
outro mar outra promessa dizendo
palavras e rimas ao vento, o silêncio
zoeira a passos do claustro monacal
zunidos e frases ecoam na cadência

saltérios e livros sagrados, mistério
d’emoções e transparência da palavra

quarta-feira, janeiro 23, 2008

lugares













a música brilha num ardor de tons
disperso de vontades reais, teorema
silêncios rápidos e poemas
em cascata musical; verdes sons
d’água cristalina doce e feminina
qual cisne navegando perdido.

tempo emaranhado, escassa luz
retorno céu onde serenas eloquente;
a Lua desaparece numa semana,
para voltar quando tudo desvanece
em palavras certas deslembradas.

esmaece a rosa das tuas mãos e
logo perdida em pão de milagre
relutante de encontros em verso,
quilómetros por aí a pensar, voando,
transparência sentida quando sentes.