
"Damião de Góis, historiador do Portugal quinhentista, é o mais europeu de todos os humanistas portugueses. Orgulhando-se sempre da Pátria em que nasceu, procurou dar a conhecer à Europa culta do seu tempo o que de mais nobre e de mais autêntico caracteriza a alma lusíada."[1]
Grande humanista foi de facto Damião de Góis. Para além dos caminhos infindáveis das Belas-Letras e da Filosofia, sobe ao supremo da erudição pensando, talvez, no texto de Platão, pela voz de Timeu, em que dizia referindo-se às Doenças da Alma : Quando a alma é mais forte que o corpo, sacode-o e enche-o de doenças; quando o corpo é mais forte gera na alma a ignorância. Portanto, há que exercitar o corpo, uma através da música e da filosofia, e outra através de passeios pela Natureza (…) [2]
A música faz parte de um longo tempo na vida de Góis, num período em que viaja pela Europa e, na Itália, por lá permanece três anos em casa própria, para um melhor conhecimento de outro grande humanista do tempo, Desidério Erasmo. Recorde-se que durante este século XVI, Portugal merece a curiosidade e a admiração de grande parte da intelectualidade europeia, fazendo esta visitas frequentes a Lisboa, num perfeito intercâmbio de conhecimentos; com eles vinham as novidades do pensamento e da escrita da Europa; daqui ouviam, aquilo que nunca tinham imaginado, os relatos das viagens dos Portugueses e o conhecimento das nossas Letras, da Matemática e da Geometria.

Viajou pelo Norte da Europa,de 1529 a 1533, contactando com mecenas, e escritores célebres, como Lutero, Melachthon, Erasmo,Munster e um outro vasto leque de pensadores católicos e heterodóxos. Regressa a Lisboa onde vai ocupar um cargo de Tesoureiro da Casa da Índia, em 1533.
Volta a Friburgo de Brisgóvia, onde estabelece residência, segundo consta, com a ideia de estar mais perto de Erasmo, convivendo diariamente com o grande humanista holandês de Quinhentos. Estuda em Pádua e relaciona-se com os maiores humanistas italianos [Bembo, Sadoleto e Ramúsio]. De regresso aos Países Baixos, reata um antigo relacionamento com Joana Van Hargen, vindo a casar pouco tempo depois. Carlos V, seu protector, atribui-lhe brasão de armas. Corresponde-se com Luís Vives, e H.Lorit Glariano refere-se a Góis, no prefácio do seu famoso tratado, "Dodecachordon"[3] [Basileia, 1547], e na III Parte deste tratado, publica, o motete "Ne Laeteris" . Dois outro motetes de Damião de Góis, "Surge propera amica mea" a cinco vozes , e "In die tribulationis", este a três vozes, e atribuído simplesmente a "Damianus", aparecem, respectivamente, num volume de "Cantiones", publicado em Ausgburgo, em 1535, por Sigismund Sablinger e ao lado de grandes compositores como Nicolas Gomber, Adriam Willaert ou Cristóbal Morales, e no "Libro secondo de il motetti a tre voce"[Veneza, Scotto, 1549] e, ainda, no "Variarum linguarum tricina …Tomi secundi", Nuremberga, Berg e Neuber, 1560.Pese embora o reduzido número de obras que Damião de Góis nos deixou, ou até porque, face às acusações e posterior condenação do Tribunal da Inquisição de que o Góis foi vítima, injustamente, como é sabido, não tenha, no "auto de fé", a instituição jesuítica, mandado destruir os seus escritos musicais. Sabe-se que a denúncia de Damião de Góis, tinha como onus, as simples reuniões com músicos e amigos, onde se tangia música e diziam poemas de teor profanos.[...] Não obstante, Damião de Góis é o nosso mais prestigiado músico amador renascentista, e um dos compositores portugueses de Quinhentos de maior projecção no estrangeiro. Em 1548 foi nomeado guarda-mór da Torre do Tombo.[...]
Este apontamento é dirigido apenas à obra musical do festejado humanista português.

Muito mais há da vida e obra de Damião de Góis. A grandeza da sua figura, não teve a honra de uma grande biografia, mesmo que, em conjunto com mais dois ou três ilustres humanistas portugueses. O que se sabe de Damião e o que está por investigar, daria um excelente trabalho biográfico. Fiquemos, por agora, com uma citação de um grande humanista português da actualidade, o professor José V. Pina Martins, no caso, referindo-se a Sá de Miranda: "A obra substitui a biografia: porque é, em última análise, uma biografia espiritual.
Manuel Varella [2002] -in www.netartes.no.sapo.pt

__
[1] Pina Martins, José V. de, Cultura Portuguesa,Verbo,Lx 1974 [2] Trad. adaptada