sábado, janeiro 26, 2008

canção liberta do mal

infinita tarde que me esqueço
sol prateado em cortina de névoa;
os pássaros se calaram do fresco
trémulos no telhado sem trégua,
tempo que muda rapidamente

de lugar em lugar aparece outro sol
outro mar outra promessa dizendo
palavras e rimas ao vento, o silêncio
zoeira a passos do claustro monacal
zunidos e frases ecoam na cadência

saltérios e livros sagrados, mistério
d’emoções e transparência da palavra

quarta-feira, janeiro 23, 2008

lugares













a música brilha num ardor de tons
disperso de vontades reais, teorema
silêncios rápidos e poemas
em cascata musical; verdes sons
d’água cristalina doce e feminina
qual cisne navegando perdido.

tempo emaranhado, escassa luz
retorno céu onde serenas eloquente;
a Lua desaparece numa semana,
para voltar quando tudo desvanece
em palavras certas deslembradas.

esmaece a rosa das tuas mãos e
logo perdida em pão de milagre
relutante de encontros em verso,
quilómetros por aí a pensar, voando,
transparência sentida quando sentes.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

d'avis a paris

repasto nocturno



foi numa tarde assim
lenta, morosa de vento
selvagem que o Inverno
estendeu num arrepio,
memória do tempo
que nos dá novas
antigas, que não mais
se reproduzem
em conversas à lareira,
esquecimento
da realidade passada,
incertezas do verbo ser...

depois a refeição
sobre o ardor do lume,
a mitigar contemplação
do belo rosto
e do repasto
do meu sentido,
das coisas e da vida;
encruzilhada de enganos
em cascatas e rios
a escoarem-se..., vazios.

domingo, janeiro 28, 2007

memória a nevar


cheguei na hora
de te ver
neve
ao de leve, a cair
em Alfragide...
o tempo agora
está assim;
a tudo se atreve.
incerto, vencedor
mas até breve.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

do mote ao mareante


















“Navio que a tua mão

conduz circularmente

é ele que te conduz

a si mesmo”

António Ramos Rosa

navio que a tua mão
conduz circularmente
sem imaginação
nem musicalidade
que posso escrever
ao correr da imagem?

imaginação forçada
na palavra
a coragem
a madrugada
insípida, distante
longa travessia
entre mares
e navegantes...

essas barcas
essas naus
levam novas
trazem pesares
levam dores
ao sabor das ondas
de regresso às praias
os pescadores
artesãos diferenciados
no amor
como soldados
matéria orgânica
do mesmo instante;

é ele que te conduz
a si mesmo
destino desconhecido
arte perdida
do mareante...

sábado, junho 24, 2006

falam relatos antigos

antepalavra

senhora do mar
ao naufragar
lado a lado,
logo a vi
numa alga
a flutuar
de mão dada
na tua

como se o tempo
fosse cortina
d'olhares e amares
em surdinas
tempestades

ah, se eu soubesse
do pesadelo
acordado
ouvindo passos
de inquietude
solitária
contigo a pensar
perdido
de não te sentir
a meu lado assim
diluída na sombra
do sol nascente

naquele profundo mar,
lado a lado
agarrados de bocas
coladas sem emergir...

quarta-feira, junho 21, 2006

se o passado entre nós

modelo surrealista


várias cenas macacas
intervalo

a meiga voz
anuncia emoções
zunidos
nas frestas da porta,
onde prendo o imaginar
do já pensado.

afinal caminho
ao lado
na tua sombra,
companhia usada
triste recolhida
afoitamente
no teu olhar
adormecido pelos ritos
e ritmos da rádio...

ruídos incessantes
no meu ouvido;
esperando novas
de outros tempos
onde tanto dissemos
sem nada ter dito

e digo-te
que está dito.

kte keria

quanto mais quero
esquecer o passado,
mais ele me empurra
pela frente e pela
retaguarda sem tréguas
de falas caídas como chuva;

os sinos retomam
gargalhadas
em subtis chamamentos
de encontros marcados
pelos sinais pintados
nas paredes de cal-viva,
esbugalhadas
numa frase livre,
enfatizada;

"eu diss kte keria,
ñ kt'amava
"

terça-feira, junho 20, 2006

cortiços de pouca renda

génio fecundo



as abelhas dançam
em cada flor
e fazem amor
em cada ramo
sem horas para
dormir
sem vida
para comer

dançam, dançam
à volta da flor
e não se cansam
de tanto fazer amor

mel e cera
quem diria
é da abelha
o parto sem dor
porque amor
a toda a hora
cansa
mesmo que seja
num ramo de flor.



persona imagem personagem



















tenho eu alguma relação com máscaras?
se sou eu não sou máscara
máscara não sou também sendo imagem.

então o poeta desdiz máscara?

ser poeta é apenas eu espontâneo
sem criar imagem ou personagem

a sua poética sai do escuro da memória;
então deixa de existir persona de imagem
e poema volta do sonho da máscara
não eu nem persona, nem personagem.