sábado, junho 24, 2006

falam relatos antigos

antepalavra

senhora do mar
ao naufragar
lado a lado,
logo a vi
numa alga
a flutuar
de mão dada
na tua

como se o tempo
fosse cortina
d'olhares e amares
em surdinas
tempestades

ah, se eu soubesse
do pesadelo
acordado
ouvindo passos
de inquietude
solitária
contigo a pensar
perdido
de não te sentir
a meu lado assim
diluída na sombra
do sol nascente

naquele profundo mar,
lado a lado
agarrados de bocas
coladas sem emergir...

quarta-feira, junho 21, 2006

se o passado entre nós

modelo surrealista


várias cenas macacas
intervalo

a meiga voz
anuncia emoções
zunidos
nas frestas da porta,
onde prendo o imaginar
do já pensado.

afinal caminho
ao lado
na tua sombra,
companhia usada
triste recolhida
afoitamente
no teu olhar
adormecido pelos ritos
e ritmos da rádio...

ruídos incessantes
no meu ouvido;
esperando novas
de outros tempos
onde tanto dissemos
sem nada ter dito

e digo-te
que está dito.

kte keria

quanto mais quero
esquecer o passado,
mais ele me empurra
pela frente e pela
retaguarda sem tréguas
de falas caídas como chuva;

os sinos retomam
gargalhadas
em subtis chamamentos
de encontros marcados
pelos sinais pintados
nas paredes de cal-viva,
esbugalhadas
numa frase livre,
enfatizada;

"eu diss kte keria,
ñ kt'amava
"

terça-feira, junho 20, 2006

cortiços de pouca renda

génio fecundo



as abelhas dançam
em cada flor
e fazem amor
em cada ramo
sem horas para
dormir
sem vida
para comer

dançam, dançam
à volta da flor
e não se cansam
de tanto fazer amor

mel e cera
quem diria
é da abelha
o parto sem dor
porque amor
a toda a hora
cansa
mesmo que seja
num ramo de flor.



persona imagem personagem



















tenho eu alguma relação com máscaras?
se sou eu não sou máscara
máscara não sou também sendo imagem.

então o poeta desdiz máscara?

ser poeta é apenas eu espontâneo
sem criar imagem ou personagem

a sua poética sai do escuro da memória;
então deixa de existir persona de imagem
e poema volta do sonho da máscara
não eu nem persona, nem personagem.